Pensamento Correlativo & Fengshui (1ª parte)

Howard Choy nasceu em Shiu Hing Guangdong China em 1949. Durante a infância, emigrou com sua família primeiro para Hong Kong, em seguida para Sydney, Austrália. Atualmente reside Berlim, Alemanha com sua esposa a arquiteta Gyda Anders. Através de seu envolvimento com o Fengshui, Tai Chi e Qigong, que fornecem o veículo perfeito para combinar sua prática profissional com a sua paixão, ele conseguiu manter sua herança de nascimento intacta.

Orgulhoso de sua herança cultural chinesa, Howard é bilíngue, o que lhe deu a oportunidade de estudar os aspectos mais profundos de Fengshui clássico e de praticar e ensinar em um nível avançado. Ele está fortemente empenhado em fazer a sua parte para garantir que esta tradição viva de sua terra natal continue a sobreviver e prosperar em todo o mundo. Ele dominou as escolas Xing-Shi Pai (Formas) e Li Qi-Pai (Bússola) incluindo os métodos Bazhai, Xuan Kong Feixing, Xuan Kong Da Gua, San Yuan e métodos de San He.

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Nesta entrevista realizada via e-mail, Howard nos fala sobre Pensamento Correlativo e sua aplicação em seu trabalho como Arquiteto e Consultor de Fengshui.

Riceles Costa: O que é Pensamento Correlativo?

Howard Choy: Eu uso o termo “pensamento correlativo” de duas maneiras. Uma é mais específica para indicar um modo particular de pensar utilizado pelos chineses em comparação com a mais familiar maneira racional ou lógica de pensar utilizada no Ocidente. A outra é mais geral; para expressar uma forma diferente que os chineses observam a ordem das coisas, em comparação com a forma Ocidental.

No sentido mais específico, o pensamento correlativo, como encontrado na cultura Chinesa como o Yijing, o Taoísmo, a teoria do Wuxing (Cinco Fases) e Fengshui, envolve a associação de imagens, conceitos ou ideias por suas qualidades inerentes ao invés de causação física. Ele usa analogia e metáforas para fazer a diferenciação e associação entre as coisas de diferentes categorias que têm uma disposição similar.

Por exemplo, em Fengshui a direção Sul está associada ao Trigrama Li para Fogo, mas nem esta direção particular nem o Trigrama causa incêndio. Eles estão associados uns com os outros porque partilham uma disposição semelhante entre si. Como esses padrões compartilhados são derivados têm mais a ver com a cultura Chinesa e tradição, do que com causação física como encontrado no pensamento racional ou lógico. Correlação não é causalidade, o interesse está mais com o modo como as coisas estão relacionadas e ressoam entre si.

No sentido mais geral, o pensamento correlativo é usado para representar o que Hall e Ames chamaram de “ars contextualis” ou “a arte de contextualizar” (Hall, David L., Ames, Roger T., “Chinese Philosophy”. Routledge Encyclopedia of Philosophy, 1998).

De acordo com Hall e Ames:

A arte da contextualização procura compreender e apreciar a maneira pela qual coisas particulares em evidência são, ou podem ser, mais harmoniosamente correlacionadas. Pensadores Chineses clássicos situaram a energia de transformação e mudança dentro de um mundo que é Ziran, auto-geradora, e encontraram as inter-relações mais ou menos harmoniosas entre coisas particulares em torno deles para ser a condição natural das coisas, sem necessidade de recurso a um princípio ordenador ou função para explicação“.

O sentido Chinês de ordem é baseado em circunstâncias relativas e não em alguns princípios universais que controlariam a forma como as coisas são ordenadas. Ordem no sentido ocidental está associada à uniformidade e a um padrão de regularidade, é “lógico” e “racional”, enquanto que no pensamento Chinês, a ordem tem uma singularidade associada a cada circunstância, é relativo ao contexto da situação e nenhuma ordem única domina. A diferença crucial entre os dois é que o sentido ocidental de ordem é monovalente, enquanto que ordem no sentido Chinês é multivalente.

RC: Qual é a relação com as teorias de Fengshui?

HC: A maioria das teorias do Fengshui, como o Taiji, as Duas Polaridades Yin e Yang, as Três Dádivas de Sancai (Céu, Homem e Terra), os Quatro Animais Míticos (Tartaruga Negra, Dragão Azul, Tigre Branco e Pássaro Vermelho ), as Cinco Fases de Wuxing (Metal, Madeira, Água, Fogo e Terra) e os Oito Trigramas do Bagua (Qian, Kun, Li, Kan, Dui, Gan, Xun e Zhen) e assim por diante, são baseados em pensamento correlativo.

Em pensamento correlativo usamos um tipo de lógica de relacionamentos entre valores correlacionados em vez de usar a lógica da análise analítica. A teoria dos 12 Animais do Zodíaco é um bom exemplo. Nesta teoria do Fengshui, nosso ano de nascimento está correlacionado a um animal, o qual é, ao mesmo tempo, representado por um dos 12 Ramos Terrestres. A partir dessas associações nós também os correlacionamos a uma das Cinco Fases (Wuxing) e usando os relacionamentos Wuxing Shengke (ciclos de geração e controle) podemos calcular o Ji-Xiong, ou conveniência de uma determinada situação, que podemos usar para contemplar quais as medidas que podemos tomar para atingir a eficácia. O animal que nos foi dado na correlação pretende ser uma metáfora que não devemos considerar em termos literais.

Os Chineses preferem pensar dessa maneira porque eles acreditam que tudo sob o sol, seja orgânico ou inorgânico, tem Qi e qualquer coisa que tenha Qi também tem Yin e Yang e por causa disso (Qi como um continuum) tudo está interligado. Para entender o que está acontecendo no mundo, os Chineses preferem procurar um padrão de relacionamento em um determinado espaço e tempo e considerar todas as partes em conjunto, em vez de separá-las e isolá-los analiticamente, para perceber o sentido do mundo. A abordagem correlativa mais holística ao Chinês e nós usamos isso nas consultorias de Fengshui da Escola da Bússola a maior parte do tempo.

Continua na Segunda Parte.   Volte para Artigos.

Riceles Araújo Costa, 10/09/2017   #Riceles   #RicelesFengshui   #Fengshui